Relato de Parto parte2

Parte1 do Relato de Parto aqui.

O caminho até a maternidade foi um martírio! Da casa da minha mãe (onde estávamos nesse período final da gestação) até a Maternidade Leide Morais são 19km e o estado das avenidas não me ajudava nenhum pouco. O trajeto que fizemos passava por parte da orla de Natal. Era dia 28/10, por volta das 5h, o dia começava a raiar novamente e os primeiros raios de sol refletiam na água do mar. Lá estou eu, vendo mais um belo amanhecer, porém as dores não permitiam que eu apreciasse como merecido. Eu só queria manter meus olhos fechados. São 5:30, chegamos à maternidade. Triagem. PA 12 x 8. Toque. 8cm de dilatação. Internação. Suíte 11.

Nessa maternidade a suíte é PPP (Pré parto, Parto e Pós parto). Enquanto minha mãe espera na recepção do hospital, entramos eu, Alex e a minha doula, Maíra. A enfermeira responsável pela ala simpaticamente nos recebeu e apresentou a suíte que ficaríamos. Logo eu corri para o banheiro, pois a única posição de conforto para mim era sentada no vaso. Pedi a enfermeira que fizesse um toque e, ali mesmo, ela, cuidadosamente, fez. 9cm de dilatação, bebê nível 2. #thebaby ainda precisava descer mais, a bolsa ainda não havia rompido e esperar o último centímetro chegar para só então o parto acontecer.

Como Alex esteve comigo todo o tempo, quero compartilhar esse espaço para que ele descreva melhor o que passamos nesse parto e eu farei alguns comentários no meio do texto dele:

Alex: Um dos meus maiores medos, desde o primeiro momento em que começamos a nos informar e nos prepararmos para sermos pais, foram os enfrentamentos, as quedas de braço que seriam travadas em prol de um parto humanizado, com mais respeito e menos riscos, tendo em vista que estamos imersos em uma sociedade com números alarmantes de violências obstétricas. Sendo assim entramos na maternidade munidos de algumas informações e doses de coragem para enfrentarmos o desconhecido, haja vista que Suy escolheu parir com o/a plantonista da maternidade de referência em PNH e não com a obstetra que a havia acompanhado durante toda a gestação, como ela já explicou em outro post.

Lá estávamos nós três (eu, Suy e Maíra) na suíte PPP, num trabalho de parto que já ultrapassava as 24 horas, quando entra um médico: “Vamos parir? Vamos parir? Vamos tirar esse bebê daí que já está na hora”. Aquilo já me deixou de orelha em pé. Como pode ele dizer “já está na hora” sem nem saber que já estávamos naquele processo há 24 horas, com todo um desgaste físico, mental, mas respeitando o ritmo e a evolução de Suy e do bebê? O que para ele era apenas um procedimento, para nós era uma experiência de vida. Após a sua “entrada magistral”, o médico realizou um toque e constatou que haviam 9cm de dilatação. Ele pega uma agulha e começa a abrir a embalagem. Suy me olha com uma cara meio assustada e apenas balança a cabeça em sinal de negativa. Eu penso: chegou a hora de enfrentar o que eu mais temia. “Dr, isso é o quê?”, pergunto. “É só uma ajudinha para acelerar o processo. Vamos estourar a bolsa para o bebê sair logo”, diz ele. “Mas ela não quer que estoure. Preferimos esperar que a bolsa rompa naturalmente”, digo. Ele me olha por cima do óculos, fecha a cara e joga a agulha em cima da mesa de instrumentos a uma distância de quase um metro. “É? Pois eu tenho um jeito de trabalhar, se vocês tem outro eu não posso fazer nada”, diz o médico enquanto deixa a sala.

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Nesse momento tento me manter aparentemente tranquilo para não comprometer a evolução do TP de Suy, mas por dentro todas as dúvidas e incertezas me tomam a mente. “Será que fizemos certo em virmos pra cá?”. “E se tivéssemos ido para a outra maternidade, será que não teria sido mais tranquilo?”. “Será que só teremos ele de médico? E agora? Como faremos?”. Maíra, a doula, acaba me ajudando a manter a tranquilidade. De uma forma ou de outra acabo também me apoiando emocionalmente nela. Afinal, é um rosto mais familiar e que sei que está conosco e não contra nós. Passado algum tempo – não saberei precisar quanto, já que desde o momento que entrei na suíte abandonei relógios e celulares – o mesmo médico retorna. “Estou passando aqui só para dar algumas justificativas”, disse. Acho muito provável que esse retorno dele para “justificar a atitude” só tenha acontecido após ele se deparar com nosso Plano de Parto, o que talvez pudesse prejudicá-lo judicialmente. Embora fosse melhor não ter voltado, ele fez questão de reforçar que era obstetra há 40 anos – confirmei a informação após fazer uma breve pesquisa pelo seu nome, da mesma forma também constatei que ele é professor universitário aposentado, ex diretor de uma maternidade pública e detentor de uma comenda “por serviços prestados” expedida pelo CRM/RN. “Deixa eu explicar uma coisa. Eu faço parto há 40 anos, mas agora, de uns tempos pra cá, tem um pessoal que anda inventando de querer parir como pariam antigamente, há 500 anos, como os índios. Chamam de parto humanizado. Pra mim isso é parto animalizado. Humanizado pra mim é tudo o que o homem faz. Se o homem fez essa agulha, essa agulha é humanizada, se ele fez esse equipamento, esse equipamento é humanizado. Quando a minha vaquinha, minha eguinha, minha gatinha vai parir eu chamo um veterinário. Eu só não chamo um veterinário para uma onça que vai parir no meio do mato, pois não dá pra chegar perto dela. Bom, eu não trabalho dessa forma então não vou poder ajudar vocês. Tem um pessoal mais novo aí chegando que tem a cabeça mais fresca e concorda mais com essas ideias, talvez eles possam ajudar melhor vocês”, conclui o ‘dotô’. Eu ouço tudo isso segurando a vontade de mandar ele calar a boca e sair da sala. Implodo todos os meus pensamentos e sensações para, novamente não atrapalhar o TP de Suy, e apenas digo: “Ok então. Obrigado”. A última coisa que eu queria era uma discussão, um bate boca, dentro da sala onde meu filho/minha filha estava nascendo, já não bastava Suy ter sido exposta gratuitamente a um discurso desrespeitoso e machista durante um momento tão delicado.

Suy: A minha vontade nesse momento era gritar para o dito obstetra: “Pois então eu sou essa onça aí, AGORA SAIA DAQUI!”.

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Alex: Após a saída do médico prosseguimos na tentativa de encontrar uma posição confortável que facilitasse o TP. Em pé, sentada, deitada, de cócoras, no leito, na bola, no sanitário… Tentávamos de tudo até que Suy diz: “Alex, acho melhor estourarmos a bolsa. Estou ficando fraca e com medo de não conseguir fazer força no expulsivo”. Vou atrás de algum médico que esteja disponível. Não encontro. E aqui alguém pode pensar: “Peraí, quer dizer então que vocês fizeram esse auê todinho com o médico anterior porque ele quis estourar a bolsa para agora vocês resolverem estourar depois”. Sim. Acredito que a decisão sobre estourar ou não a bolsa – além de outros procedimentos – deve partir do casal, sobretudo da parturiente, e não imposta pelo médico de forma arbitrária, autoritária e insensível.

Passado algum tempo entra na suíte uma jovem médica. “Será que essa é da turma jovem que o médico anterior falou?”, penso. De maneira mais educada e atenciosa ela nos cumprimenta e prossegue com o toque e em seguida com o rompimento da bolsa. “Enfermeira, prepara um soro com o remedinho”, diz a médica. Suy novamente olha pra mim e mexe a boca perguntando: “Que remedinho?”. “Dra, que remedinho é esse?”, pergunto. “É para acelerar o TP, pois ao estourar a bolsa veio um pouco de mecônio*, então precisaremos apressar o nascimento e esse remédio vai ajudar nas contrações”, explicou. Perguntei se era ocitocina sintética e ela confirmou. Informei que Suy não gostaria que a substância fosse administrada e perguntei quais seriam os riscos e se havia como monitorar os batimentos do bebê para vermos se estava tudo bem. Aparentemente ela não gostou muito de termos quebrado o protocolo, mas respeitou. O mecônio estava bem diluído e os batimentos estavam em 140bpm. Tudo certo. Disse a médica que como estava tranquilo gostaríamos de esperar parar ver se Suy engataria no expulsivo. Ela concordou e disse que voltaria para verificar os batimentos.

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Feito isso voltamos a encontrar uma posição favorável. Eu sentei na escadinha que serve de apoio para a maca e Suy ficou de cócoras segurado no meu braço e fazendo força, enquanto Maíra apoiava as costas dela. Estamos concentrados em fazer força e manter um ritmo quando alguém abre bruscamente a porta e diz: “Oi, eu sou a pediatra e gostaria de saber se vocês vão querer minha presença”. Uma interrogação gigante cresceu na minha testa. Não sabia o que responder. Não estava preparado para aquela pergunta, ainda mais vinda de maneira tão ríspida. “Ué, a pediatra sempre fica, né?”, disse a doula. “É, mas eu já soube que vocês tem Plano de Parto, que o bebê está com mecônio. Se for pra ficar só de enfeite eu não fico. Quero saber se vou poder fazer os procedimentos necessários. Vocês sabem que o bebê está em sofrimento, né? Se ele tiver alguma complicação a coisa mais difícil do mundo é conseguir vaga na UTI neonatal… Vocês sabem disso, né?” – infelizmente esse tipo de terrorismo é mais comum do que gostaríamos e eu já tinha lido alguns relatos em que profissionais da saúde tentam chantagear os pais de maneira covarde apelando para o emocional. “Sim, estamos cientes”, respondi rapidamente e voltei a minha atenção para auxiliar Suy.

Suy: No momento em que a pediatra dá as costas e sai da sala, eu, que estava de costas para a porta, lindamente estiro o dedo do meio para a criatura. Alex me dá um tapinha na mão e diz: “Menina! A porta ainda estava aberta!”, ao que eu respondo: “Que se dane!”.

Alex: Até aqui, não vou mentir, eu já havia pensado em sair da sala várias vezes. Estava com muita ânsia de vômito, possivelmente provocados pelo nervosismo, apreensão, irritação, uma série de sensações que eu tentava controlar para manter o foco e poder ajudar Suy, tudo isso intensificado pelos cheiros, pelo sangue, líquido amniótico, fezes… Uma doideira. Cada pessoa que batia na porta ou girava o trinco deixava meu estômago parecendo uma centrífuga. “Será que é mais alguém para fazer terrorismo?”, pensava. Enquanto Suy tentava colocar o bebê pra fora, eu tentava manter tudo dentro de mim mesmo.

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Em determinado momento, Suy, que até então estava de cócoras, tenta se levantar e não consegue. Opa! Ela se inclina para trás e… EU CONSIGO VER PARTE DA CABEÇA SAINDO!!! Na mesma hora penso duas coisas: (1) “Essa cabeça é pequena demais… (2) ou isso é só PARTE DA CABEÇA E NÃO VAI PASSAR AÍ NÃO!”. Olho para Maíra e sugiro chamar a equipe, afinal eu também já estava ficando apreensivo, tendo em vista que a médica havia ficado de retornar para verificar os batimentos e até agora nada. Ela sugere aguardar mais um pouco para não correr o risco de eles quererem fazer uma episiotomia*. Tudo bem, então vamos fazer força no 3. “Um, dois, TRÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊS!!!”, gritamos. Instintivamente desde o início percebi que teria que fazer força também, pois sempre que eu fazia força e apertava os braços/pernas de Suy ela conseguia fazer uma forcinha a mais, então prosseguimos. “Um, dois, TRÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊS!!!”. Maíra me diz para avisar quando estiver vendo os olhos. “Um, dois, TRÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊS!!!”. “Maíra, estou vendo os olhos… CHAMA A EQUIPE!”. Maíra abre a porta e começamos a gritar pela equipe médica. Eles demoram um pouco a chegar e eu já começo a pensar em como irei segurar o bebê pois a cabeça já está quase toda do lado de fora. De repente a médica chega, me afasta para o lado, rotaciona o bebê, puxa o resto do corpo, corta o cordão umbilical, o bebê chora, Suy chora, eu choro, todos choramos… “É uma menina, Alex. É uma menina!”, diz Suy enquanto tenta segurar pela primeira vez nossa pequena.

Suy: Alex estava com os olhos marejados e um sorriso de canto de boca que, só quem o conhece, sabe exatamente que sorriso é esse. Um misto de alegria e alívio porque tudo estava chegando ao fim. Ela nasceu perfeitamente normal, veio direto para os meus braços, mas, infelizmente, clampearam o cordão muito antes do que desejávamos e a repassaram imediatamente para a pediatra.

Alex: “A gente acha que não vai dar certo, mas dá. Sempre dá”, foi a última coisa que eu ouvi da médica, pois após constatar que as duas estavam bem, fui logo para a recepção informar a família que a nossa bebê havia chegado.

Suy: Enquanto Alex foi contar a novidade aos que nos aguardavam na recepção, a obstetra fez a massagem para retirar a placenta, desrespeitando mais uma vez o nosso plano de parto, e a pediatra fez aspiração na bebê além de colocá-la no oxigênio, alegando um “desconforto respiratório”, deixando-a por aproximadamente 2h longe de mim. Foram tantos enfrentamentos da hora que chegamos ao nascimento que acabamos cedendo aos procedimentos finais que eram tão invasivos, tanto para mim quanto pra nossa filha.

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Hora de sair do chão. Maíra e a enfermeira me ajudaram a levantar e me conduziram até a maca. A limpeza foi feita e a obstetra me informou que tinham 3 pequenas lacerações, mas que ela ia ver se haveria a necessidade de suturar. Expliquei que não queria ser suturada se não fosse estritamente necessário. Após verificar, ela informou que a sutura de fato não seria necessária, mas que eu sentiria um desconforto ao urinar e que eu deveria fazer a assepsia adequada da região para não inflamar. Menos uma intervenção e mais uma solicitação respeitada.

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Quando todos saíram da sala, ficamos apenas eu, Alex e nossa bebê. Choramos de alívio, de cansaço, de alegria, de amor. Hora de decidirmos o nome. Por tudo que passamos naquelas 30h e pelo nascer do sol ter nos acompanhado, decidimos: seu nome será Aurora.relato de parto, rumo à maternidade, maternidade, parindo, mãe de primeira viagem, menino ou menina?, parto normal, trabalho de parto, expulsivo, é uma menina!

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No final o saldo foi positivo: tive meu parto de índia, mas nosso plano de parto não foi 100% respeitado, ainda há uma realidade que precisa mudar.

PS: levamos 2 câmeras para fotografar o processo, mas devido à intensidade, as prioridades foram outras.

Mecônio é um material fecal de cor esverdeada bastante escura, produzida pelo feto e normalmente é expelida nas primeiras 12 horas após o nascimento. Às vezes, o mecônio é expelido antes do parto, colorindo o líquido amniótico que normalmente é de cor clara.
* Episiotomia é uma incisão efetuada na região do períneo (área muscular entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal de parto.

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Sobre Suy

Olá! Meu nome é Suylannie, mais conhecida como Suy.

3 Respostas para “Relato de Parto parte2

  1. Marcela

    Que história emocionante! Muito forte. Dá pra perceber o poder dos sentimentos. Parabéns pela filha tão linda e pela força de vocês em se apoiarem. Muito especial!

  2. Paulinha

    Que nervoso!!! Que lindo! Quanta vida!!!! Viva Aurora!

  3. Pingback: Sobre minha experiência com a Amametação | Estilo S

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